Para além do desenho livre: contribuições do ensino de Arte para o pensamento crítico à luz da BNCC
Palavras-chave:
Arte-educação, Psicologia histórico-cultural, Educação estética, Escola pública, Currículo, Formação docenteResumo
O ensino de Arte na escola pública brasileira ainda é frequentemente reduzido a atividades de expressão espontânea, como o chamado “desenho livre”, desprovidas de intencionalidade pedagógica e de articulação com o conhecimento artístico historicamente produzido. Essa redução contrasta com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que vincula o componente Arte a seis dimensões do conhecimento (criação, crítica, estesia, expressão, fruição e reflexão) e inscreve a análise crítica entre as competências gerais da educação básica. Este artigo tem como objetivo analisar as contribuições do ensino de Arte para o desenvolvimento do pensamento crítico de estudantes da escola pública, à luz da BNCC e em diálogo com a Psicologia, em especial com a psicologia histórico-cultural de Vigotski e com os estudos psicológicos sobre o pensamento crítico. Trata-se de pesquisa qualitativa, de natureza bibliográfica e documental, cujo material foi tratado por meio de análise de conteúdo temática. Os resultados indicam que as dimensões do conhecimento em Arte mobilizam processos psicológicos diretamente implicados no pensamento crítico, como a percepção analítica, a interpretação, a argumentação, a imaginação e a autorregulação, desde que a prática pedagógica seja mediada, sistemática e orientada por objetivos explícitos. Evidenciam, ainda, que a persistência do desenho livre como prática dominante se associa a condições estruturais da rede pública, como a insuficiência de docentes com formação específica e a reduzida carga horária do componente. Conclui-se que a efetividade das prescrições da BNCC depende de políticas de formação docente e de condições de oferta que permitam à Arte cumprir sua função formativa, superando o espontaneísmo sem retornar ao tecnicismo.
Downloads
Referências
ALMEIDA, Marilene Oliveira; BARROS, Gelka Arruda de; CAMPOS, Regina Helena de Freitas; ARAÚJO, Christiane Campos de; CAÑETE, Lilian Sipoli Carneiro. Sínteses da apropriação do conceito de educação estética de Vigotski no ensino de arte brasileiro (2006-2020). Pro-Posições, Campinas, v. 35, e2024c0104BR, 2024.
BARBOSA, Ana Mae; CUNHA, Fernanda Pereira da (org.). A abordagem triangular no ensino das artes e culturas visuais. São Paulo: Cortez, 2010.
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016.
BARROCO, Sonia Mari Shima; SUPERTI, Tatiane. Vigotski e o estudo da psicologia da arte: contribuições para o desenvolvimento humano. Psicologia & Sociedade, Belo Horizonte, v. 26, n. 1, p. 22-31, 2014.
BOWEN, Daniel H.; KISIDA, Brian. Investigating the causal effects of arts education. Journal of Policy Analysis and Management, v. 43, n. 3, p. 624-647, 2024.
BRASIL. Lei nº 5.692, de 11 de agosto de 1971. Fixa diretrizes e bases para o ensino de 1º e 2º graus, e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 1971.
BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, DF: Presidência da República, 1996.
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: arte. Brasília, DF: MEC/SEF, 1997.
BRASIL. Lei nº 13.278, de 2 de maio de 2016. Altera o § 6º do art. 26 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que fixa as diretrizes e bases da educação nacional, referente ao ensino da arte. Brasília, DF: Presidência da República, 2016.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018.
BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Censo da Educação Básica 2022: notas estatísticas. Brasília, DF: Inep, 2023.
BRASIL. Lei nº 14.945, de 31 de julho de 2024. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), a fim de definir diretrizes para o ensino médio, e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 2024.
EISNER, Elliot W. The arts and the creation of mind. New Haven: Yale University Press, 2002.
FACIONE, Peter A. Critical thinking: a statement of expert consensus for purposes of educational assessment and instruction. Millbrae: The California Academic Press, 1990.
FRANCO, Amanda; ALMEIDA, Leandro S.; SAIZ, Carlos. Pensamiento crítico: reflexión sobre su lugar en la enseñanza superior. Educatio Siglo XXI, Murcia, v. 32, n. 2, p. 81-96, 2014.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2017.
GREENE, Jay P.; KISIDA, Brian; BOWEN, Daniel H. The educational value of field trips. Education Next, Stanford, v. 14, n. 1, p. 78-86, 2014.
HALPERN, Diane F. Thought and knowledge: an introduction to critical thinking. 5. ed. New York: Psychology Press, 2014.
HETLAND, Lois; WINNER, Ellen; VEENEMA, Shirley; SHERIDAN, Kimberly M. Studio thinking 2: the real benefits of visual arts education. 2. ed. New York: Teachers College Press, 2013.
HOUSEN, Abigail C. Aesthetic thought, critical thinking and transfer. Arts and Learning Research Journal, v. 18, n. 1, p. 99-132, 2002.
IAVELBERG, Rosa. O desenho cultivado da criança: prática e formação de educadores. 2. ed. Porto Alegre: Zouk, 2013.
IAVELBERG, Rosa. A Base Nacional Curricular Comum e a formação dos professores de arte. Horizontes, v. 36, n. 1, p. 74-84, 2018.
MARTINS, Lígia Márcia. O desenvolvimento do psiquismo e a educação escolar: contribuições à luz da psicologia histórico-cultural e da pedagogia histórico-crítica. Campinas: Autores Associados, 2013.
VIGOTSKI, Lev Semenovitch. Psicologia da arte. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
VIGOTSKI, Lev Semenovitch. Psicologia pedagógica. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
VIGOTSKI, Lev Semenovitch. Imaginação e criação na infância: ensaio psicológico. São Paulo: Ática, 2009.
VINCENT-LANCRIN, Stéphan et al. Fostering students’ creativity and critical thinking: what it means in school. Paris: OECD Publishing, 2019.
WEDEKIN, Luana Maribele; ZANELLA, Andréa Vieira. L. S. Vigotski e o ensino de arte: “A educação estética” (1926) e as escolas de arte na Rússia 1917-1930. Pro-Posições, Campinas, v. 27, n. 2, p. 155-176, 2016.
WINNER, Ellen; GOLDSTEIN, Thalia R.; VINCENT-LANCRIN, Stéphan. Art for art’s sake? The impact of arts education. Paris: OECD Publishing, 2013.
Downloads
Publicado
Licença
Direitos autorais (c) 2026 Alessandra Raquel Lopes Rodrigues Borges (Autor)

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Os artigos publicados pela Revista Científica Se Prepare Bem são disponibilizados sob a licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0).
Esta licença permite que terceiros compartilhem, copiem, distribuam, exibam e adaptem o conteúdo publicado, inclusive para fins comerciais, desde que seja atribuída a devida autoria, seja indicada a fonte da publicação e seja informado se foram realizadas alterações no conteúdo.
A atribuição deve mencionar os autores, o título do trabalho, a Revista Científica Se Prepare Bem e os dados de publicação disponíveis no artigo.
Os direitos autorais permanecem com os autores, conforme as políticas editoriais da revista.